Prática sindical no século XXI
“Não há vento favorável para quem não sabe a que porto quer chegar”
Luiz Carlos Prestes.[1]
Vamos tratar nesta palestra sobre a prática sindical de uma proposta de ação que, se formos capazes de implementar, irá revolucionar a maneira como os trabalhadores da saúde se enxergam e a força de nosso segmento social na arena pública gaúcha.
A relação entre uma entidade representativa e a categoria é dada na proporção em que se percebe que a vida cotidiana dos trabalhadores é afetada pela direção da entidade. Ou seja, é preciso que a direção sindical esteja presente na discussão diária das condições de trabalho, na recomposição e no aumento da massa salarial, na luta pelo cumprimento dos acordos e pelo respeito às leis trabalhistas. Mas além de estar presente é preciso que se invista na percepção deste trabalho.
No mundo contemporâneo as marcas são impregnadas de sentido e tem mais valor, na maioria das vezes, do que o produto que a marca representa. Assim é que sabemos que a marca “Coca Cola” tem mais valor do que o refrigerante que leva este nome. O mesmo vale para o trabalho representativo. A imagem de uma categoria, o significado e o valor do trabalho em saúde, para olharmos para a nossa própria realidade, não existe a priori. Ela tem que ser construída. É preciso fazer a propaganda, o marketing, de nosso produto, de nosso trabalho, do valor positivo do trabalhador da saúde. Isto é um tipo de publicidade direcionada especificamente para a atividade representativa: a publicidade institucional. Observamos o crescimento deste tipo de publicidade em toda a área institucional, fortemente no setor sindical e especialmente entre as corporações de trabalhadores da saúde desde o ano 2000. É uma estratégia que vem sendo usada pelos conselhos profissionais, pelas entidades de classe patronal, pelos grandes sindicatos como SINPRO, CEPERS, BANCÁRIOS, etc...
No entanto, este tipo de publicidade é muito cara. Demanda uma articulação e concentração de esforços que, no caso da FEESSERS, só pode ser feita de maneira unificada e articulada com os sindisaúdes. Alem disso, uma entidade precisa ter envergadura orçamentária suficiente para arcar com o custo da publicidade institucional. Mas visto de outra forma, publicidade pode ser um investimento. Nesta visão a publicidade se apresenta como forma de aumentar orçamento da entidade sindical.
Aqui chegamos ao ponto crucial onde imagem institucional, marca e auto-estima profissional se conectam ao assunto desta palestra: prática sindical. O trabalho sindical requer uma aposta de ambos os lados – categoria e líder sindical. Ao votar em uma chapa o trabalhador está fazendo uma aposta entre as várias opções que buscam a direção sindical. O candidato também aposta, no sentido em que faz promessas para se eleger.
Esta aposta pode ser mais ou menos consistente na medida em que as promessas sejam concretizadas, ou não. Uma categoria sempre irá duvidar de uma direção que entregue aos trabalhadores apenas a perspectiva de um mundo melhor. Apesar de a maioria das pessoas não disporem de tempo para fazer análises mais detalhadas como as que estamos fazendo nestes dois dias de congresso, elas têm um critério prático para atribuir legitimidade política a suas lideranças: - os resultados. No final eles é que contam. Manutenção e aumento do padrão de consumo, segurança no emprego, presença dos diretores sindicais na base são alguns dos fatores que rendem legitimidade e respeito dos trabalhadores.
Porém, como já afirmamos acima, na sociedade midiática em que vivemos o valor da imagem e das marcas é mais sólido do que o aço. Assim, temos de produzir resultados concretos, por um lado, e dar publicidade a estes resultados, por outro. Não basta fazer propaganda vazia e nem trabalhar muito sem mostrar o que se está fazendo.
Existe uma longa lista de ações sindicais que já realizamos e que não tem a devida publicidade. Por exemplo, gostaria de citar a recomposição salarial que é feita anualmente nas mesas de negociação com a patronal. Todo o ano, desde que a inflação foi controlada, há mais de uma década, temos de negociar livremente com os gestores da saúde o reajuste salarial. Como antes disso os reajuste eram sempre na casa dos dois dígitos percentuais os trabalhadores acham que os reajustes atuais são muito pequenos. As pessoas não levam em consideração que os salários não estão mais indexados. Parece, então, para o senso comum que o resultado das negociações salariais piorou muito. Ora, este é um erro de percepção. Os salários não recebem mais reajuste automático, apenas o que for negociado com os patrões. Na verdade temos dados que indicam aumento nos gastos com saúde desde o início do plano real.
Desta forma as pessoas ainda acreditam que o índice de inflação anual é repassado automaticamente para os salários. Pior ainda, elas acreditam que a estabilidade monetária é resultado da macro-política econômica, quando na verdade o benefício da estabilidade monetária tem sido garantido a cada rodada de negociação. Temos, então o absurdo de a massa salarial real estar aumentando e os trabalhadores seguindo com uma noção errada de que o sindicato é dispensável ou ineficiente. Isto é conseqüência da falta de marketing institucional.
Outro fator que nos é desfavorável é que a maioria dos sindicatos grandes tem uma forte marca coorporativa. Os seus membros identificam suas condições de vida com o perfil da profissão que exercem. Ou seja, se sentem valorizadas pelas suas profissões. Esta formula de sucesso nos escapa porque a FEESSERS reúne várias categorias profissionais, algumas com histórico de baixa valorização na sociedade.
Concordamos que muito do sofrimento que se agrega a tarefa de produção de saúde advém de uma má compreensão do significado de ser trabalhador da saúde no imaginário coletivo brasileiro. Este imaginário é historicamente o lugar da caridade ou da expiação. Ou somos anjos da guarda, ou somos anjos caídos. Raramente somos reconhecidos como profissionais competentes produtores de um bem concreto definido como saúde e não apenas a ausência de doença. Mais do que qualquer coisa o que fazemos embora a sociedade não reconheça é a promoção da qualidade de vida.
Felizmente existe outra forma, além do corporativismo, de adquirir credibilidade para a atividade representativa. A forte inserção na vida concreta de seus associados pode nos trazer muito mais credibilidade do que já temos. Iremos, portanto, iniciar um debate acerca estas formas de inserção na vida dos trabalhadores da saúde a seguir.
Combinaremos que todo o trabalho representativo que já é realizado deve ser mantido, acrescentando um projeto de publicidade que torne visível o que já fazemos. Uma publicidade desse tipo deve incluir o boca-a-boca tradicional, a distribuição de panfletos, jornais e matérias pagas em rádio e jornais locais. Além disso, temos de buscar financiamento para grandes campanhas de marketing em nível estadual. Aqui é que entram as novas formas de atividade representativa que proponho que devam ser adicionadas as tradicionais. Isto sem prejuízo da eliminação das práticas sindicais que são anacrônicas ou nocivas à categoria e a suas lideranças.
Há várias formas de assumirmos algumas das tarefas sugeridas acima. Nossas diretorias são grandes e diversificadas. Podemos pensar em criar incentivo para os responsáveis por estas áreas, na medida em que elas acrescentam recursos ao orçamento das entidades.
Enfim, este é o sindicalismo do século XXI. Arregaçar as mangas e por as mãos a obra vale a pena. Como já afirmamos na segunda metade da década passada: “O caminho se faz ao andar”.
Marco Pires
Novembro de 2008
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